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Aparecida de Jesus Ferreira: a professora que abriu caminhos

No Dia do Professor, comemorado no último sábado (15), Aparecida reflete sobre sua atuação pioneira, especialmente na área de letramento racial crítico

Aparecida reflete sobre sua atuação pioneira, especialmente na área de letramento racial crítico. Foto: Jéssica Natal



No quadro de giz, ela escrevia palavras. Ao refletir o quanto elas permearam seu trabalho, Aparecida de Jesus Ferreira perdeu as contas de quantas vezes as mencionou nos mais de 34 anos de docência. Na última quinta-feira (06), chegou a aposentadoria para a docente do Departamento de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). No Dia do Professor, comemorado no último sábado (15), Aparecida reflete sobre sua atuação pioneira, especialmente na área de letramento racial crítico.


Com a aposentadoria recente, falar no tempo verbal presente ainda é um vício. “Eu participo… participava, né? Fico o tempo todo mudando o tempo verbal, porque não estou acostumada ainda”, brinca. Apesar de se confundir com o que faz ou fez, o currículo da professora é extenso. Formada em Letras Português-Inglês pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Aparecida começou a carreira como docente do ensino superior em 1996 e, em 2009, iniciou sua história com a UEPG. “Sempre com foco nos estudos da linguagem, observando a formação de professores da língua inglesa, políticas educacionais e linguísticas, mais especificamente de identidade de professores de línguas, com um pensamento interseccional de com raça, gênero e classe social”, relata.


Trajetória

A temática explicada por Aparecida foi sua grande contribuição nos estudos da linguagem. A docente abriu caminhos – a primeira professora negra dentro do campo de estudos da língua inglesa que discutiu as relações raciais em contexto de letramento racial crítico. “Fico muito feliz em trazer essas reflexões para dentro do nosso contexto brasileiro, que precisa muito refletir sobre questões de raça interseccionada com gênero e classe social, considerando que somos uma sociedade racista, que precisa repensar as ações dentro da própria Universidade e na formação de professores”, ressalta.


O início de tudo se deu com a jovem Aparecida, que decidiu cursar Letras em Cascavel em 1988. “Foi o ano em que a faculdade se tornou a Unioeste. Participei muito na luta da Universidade pública, gratuita e de qualidade e isso me deu a dimensão de participação de movimentos, foi importante para eu decidir trabalhar com políticas linguísticas, fazendo uma Universidade mais justa, equitativa e inclusiva”, relembra. De lá para cá, ela fez Mestrado na Unesp, Doutorado e Pós-Doutorado na Universidade de Londres-Inglaterra, além de ter sido professora visitante na King’s College London e na University of Bristol, ambas no Reino Unido.


Contribuição

O trabalho de relevância levou Aparecida a vários lugares do Brasil e do mundo. “Tenho sido convidada para dar palestras em associações e Universidades, levando sempre o nome UEPG para esses lugares”, salienta. O trabalho também impactou ações na UEPG. Tão logo chegou na instituição, a professora ajudou a fundar o Núcleo de Relações Étnico-Raciais, de Gênero e Sexualidade (Nuregs). “Também realizei muito a discussão de política de cotas, com reflexões e movimentos e participação junto a sociedade civil, para colaborar com professores da educação básica”, relembra.


Com grande influência se ganha grandes responsabilidades. “Sempre fiz o esforço de publicar muito, por saber que esta é uma área que precisa de publicação, para ter impacto principalmente em políticas educacionais e linguísticas”. O esforço em pensar nas identidades sociais de raça no livro didático é o que Aparecida considera como sua grande contribuição. “Sempre faço uma pesquisa qualitativa e quantitativa e por conta disso acaba demonstrando as lacunas das representatividades que têm nos livros didáticos”. A professora não esconde que percebe o impacto que suas pesquisas tiveram no Brasil. “Principalmente quando comecei a trazer a questão do letramento racial crítico e da teoria racial crítica para o contexto brasileiro. Fui a primeira pessoa a trazer essa reflexão para o Brasil, pois percebi a falta da reflexão dos estudos de raça no contexto dos estudos da linguagem”, ressalta.


Os momentos marcantes são vários para Aparecida. Dentre eles, foi quando publicou o livro infantil ‘As Bonecas de Lara’, obra que traz crianças e suas experiências com bonecas negras. “Foi um trabalho sem muita pretensão, mas que acabou ganhando um edital e eu resolvi distribuir gratuitamente para as escolas da cidade”. A publicação rendeu um uma capacitação com dois mil professores municipais, sobre representatividade nas escolas. “Naquele ano, teve uma feira de educação e todas as escolas trouxeram ações que fizeram a partir do meu livro e aquilo foi muito marcante, muito bacana, porque não esperava que tivesse esse impacto”, relembra.


Daqui para frente

A aposentadoria de Aparecida veio aos seus 55 anos. “Mas já tenho vários convites para palestras. Agora quero me dedicar às coisas que antes não tinha tempo de fazer”, conta a mulher que trabalha desde os 17 anos e pondera que já contribuiu bastante na sala de aula. “Está na hora de dar espaço para outras pessoas na docência e, quanto a mim, continuarei na reflexão de políticas educacionais e diálogos no Brasil e exterior”.


Atuar na Universidade pública, gratuita e de qualidade é o grande orgulho da vida de Aparecida. “Fico muito feliz por toda a contribuição que dei e espero continuar dando, com o meu comprometimento durante todo esse período, atuando muito, contribuindo muito com publicações e ações”, destaca. Nesse tempo de docência, conseguiu tudo o que queria fazer? Aparecida diz que sim. “A Universidade me propiciou publicar, ampliar e divulgar as pesquisas. Sempre fui incentivada a levar o nome da UEPG para fora do contexto brasileiro”.


A docente destaca que que sempre aconselhou acadêmicos a aproveitar tudo o que a Universidade oferece. “Só não aproveita o que a Universidade tem quem não quer, pois na verdade faltam alunos para todas as demandas e projetos”. A alma incansável da professora que ainda tem muito chão para correr a caminhos para abrir adverte: “Eu não vou parar de trabalhar e produzir”, finaliza.


Da Assessoria



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