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Arte-educador de PG usa redes para falar de história da arte com irreverência

Com rigor acadêmico, estética ‘memística’ e uma pitada de sacanagem, educador destaca os aspectos curiosos da história da arte

Arte-educador de PG usa redes sociais para falar de história da arte com irreverência. Foto: Divulgação

Se você gosta de arte, curiosidades e memes, precisa conhecer o 'História da Arte com o Tio Virso', um perfil no Instagram e Facebook que fala sobre arte de modo irreverente e divertido, sem deixar de ser inteligente e trazer informações confiáveis. Lá é possível encontrar, por exemplo, desde uma explicação para o motivo de os gatos serem populares na Internet até um 'top 5' sobre as menores roupas íntimas da história da humanidade.


Criado em 2019 pelo artista e arte-educador ponta-grossense Vilson André Moreira Gonçalves, que atualmente reside em Cuiabá (MT), o perfil surgiu como uma forma de enfrentar o luto. "O meu melhor amigo, aquele com quem eu sempre pude contar para falar sobre tudo, havia falecido. Entre falecimentos e rompimentos, eu perdi muitas amizades ao longo dos últimos anos. O meu modo de lidar com essas perdas foi pela via do humor", lembra.


Extravagante, mas com conteúdo

Formado em Artes Visuais e especialista em História, Arte e Cultura pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Vilson conta que, embora tenha um grande amor por arte barroca e rococó, sempre foi fascinado por estéticas dramáticas e excessivas – por isso as imagens cômicas e excêntricas que ilustram a maior parte do conteúdo produzido por ele para as redes sociais. "Eu tenho essa inclinação enorme para o brega, o kitsch, o camp, e isso me leva a gostar mais do que é extravagante e grandioso. Mesmo quando é feio, é um feio com muita presença", explica.


Apesar do estilo debochado, a produção dos materiais é realizada através de um sério processo de pesquisa, muito parecido com a elaboração de um artigo acadêmico. "Eu listo os temas, faço um breve 'estado da arte' a partir da bibliografia que eu já tenho, procuro publicações adicionais e aí me volto para a escrita", descreve. "Basicamente, é como escrever uma monografia, mas tudo precisa caber em, no máximo, dez slides, com poucas linhas de texto em cada um."


Sexo, nudez e... arte fascista

Sexo, órgãos genitais e nudez são assuntos frequentes nas publicações do 'História da Arte com o Tio Virso', tema que o criador considera uma celebração da vida, da alegria e do desejo. "Paulo Freire disse em uma entrevista: ‘Sou um homem sensual’, e explicou que tinha uma 'sensualidade ética'. Essa atitude é considerada anormal, porque a moral dominante associa sexo com devassidão, desvios de caráter etc, mas não quero me conformar a uma visão de mundo que exclui o sexo", comenta.


No entanto, Vilson explica que esses não são os temas que geram maior engajamento, mas, sim, aqueles relacionados a arte fascista, relações entre arte e artesanato, e artistas considerados "problemáticos". "São as minhas publicações que geram interação ininterrupta até hoje", destaca.


Gregos e troianos

Embora o projeto tenha milhares de admiradores – são 32,9 mil no Instagram e 39,6 mil no Facebook –, Vilson lembra que não é possível agradar a todos e que muitos profissionais da área ainda torcem o nariz para o seu jeito irreverente de contar a história da arte.


"Eu não sei dizer honestamente quanto do meu público é da área, então estimo isso pela presença nos comentários. Em geral, artistas e professores mais jovens me encorajam muito e reagem positivamente. Claro, muita gente desgosta do tratamento que eu dou aos tópicos, por considerar vulgar", aponta. "Existe, no meio intelectual, um preconceito grande com tudo que é popular, coloquial, irreverente, e muito disso respinga em mim."


Afinal, o que é arte?

Autor de um e-book intitulado O que é arte?, Vilson acredita que é fútil definir arte como um conceito fechado. "Arte é decoração, é narrativa, é choque, é prazer visual, é epifania religiosa e muitas coisas mais, mas raramente é tudo isso ao mesmo tempo. É uma categoria que nunca para de se expandir e se ressignificar", argumenta. "Arte é, bem simplesmente, tudo aquilo que vive na grande tradição humana de alimentar os sentidos por meio da criatividade e de códigos de linguagem. Qualquer definição mais restrita simplesmente não funciona", resume.


Atualmente, além de se dedicar às redes do perfil, Vilson também oferece aulas particulares e cursos sazonais (veja aqui). "Produzo cursos centrados em temas: um deles foi sobre polêmicas em torno da arte contemporânea, e o outro, ainda rolando, sobre nudez artística. E, graças à parceria que eu tenho com o Espaço f/508 de Cultura, consigo falar de arte de formas que normalmente não seriam possíveis em outros espaços", conclui.


Por NCG