Paulo Betti encerra o FENATA com monólogo autobiográfico que celebra memória, ancestralidade e a força do teatro
- culturacaopg

- 14 de nov.
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A noite de encerramento do FENATA, na última quinta-feira (13), foi marcada pela apresentação de Autobiografia Autorizada, monólogo escrito, interpretado e codirigido por Paulo Betti, em parceria com Rafael Ponzi. Em conversa com as equipes do CulturAção e do Cultura Plural, o ator revisitou as camadas que compõem o espetáculo, uma obra que combina recursos cênicos elaborados, como iluminação precisa, figurino detalhado, trilha sonora original, cenário simbólico e projeções que dialogam com a narrativa.
A montagem percorre a trajetória do próprio artista, que parte da infância do interior até alcançar a vida urbana, costurando essa caminhada com referências à imigração italiana e ao chamado “Brasil profundo”. É, acima de tudo, um mergulho na formação de identidade, nas raízes familiares e na força das memórias que estruturam sua vida e sua arte.
Segundo Paulo, transformar lembranças pessoais em dramaturgia exigiu coragem e desprendimento. “A peça foi uma escolha de eu contar a minha história pessoal, que não foi fácil inicialmente, eu decidi fazer e contar a minha história. Porque todo mundo que faz uma autobiografia tem um pouco esse pudor. Aí você fala: ‘Poxa, será que a minha história pessoal serve para ser contada’? Mas hoje eu acho cada vez mais que cada história pessoal é muito interessante. Todo mundo tem uma história interessante para contar. Mas eu tive que me convencer que a minha história era suficientemente interessante para contar na frente das pessoas e tudo mais.”
Fotos: Maria Malucelli| CulturAção
Ao refletir sobre sua relação com a arte, Betti fala do teatro como espaço de encontro e potência: “O teatro é uma troca, né? Isso que é interessante, é onde nós estabelecemos relações mais profundas. Porque é uma coisa ao vivo, né? É diferente de qualquer coisa que seja né? Que também é muito importante, mas eu gosto de estar presente, de fazer a minha peça nesses lugares todos. Tô envelhecendo no teatro contando a história dos meus ancestrais. Que coisa mais prazerosa que isso, né? Contando como era meu avô, minha avó, meu pai, minha mãe, que eles eram incríveis e que eu fui criado num lugar excepcional e que tive muitas oportunidades, né? Deus também essa meio que testemunha um pouco essa ideia da escola pública gratuita, né, do ensino desde creche, da arte, da cultura e do ensino mesmo, dele ser possível para as pessoas.”
No processo criativo, ele explica que a busca pelo equilíbrio entre emoção pessoal e rigor técnico se tornou parte essencial da construção do monólogo. “O monólogo sempre é, vamos dizer assim, um refúgio, mais viável, uma coisa viável para o ator fazer para ele continuar ganhando seu pão e fazendo a sua função, de estar no palco e tal.” Ao narrar a fase inicial da escrita, relembra o momento em que decidiu abandonar um texto já existente para assumir sua própria voz: “Quando eu fui fazer o monólogo, eu peguei o monólogo de um amigo meu, olha, achava que eu não escrevia, sendo que há 25 anos eu tinha uma coluna semanal no jornal de Sorocaba. E então, eu escrevia. Aí, de repente, eu descobri que aquele monólogo não dizia o que eu queria dizer. Porque naquele monólogo, o autor, ele dizia: ‘Minha mãe tinha uma empregada doméstica’. E eu estranhava, porque minha mãe era uma empregada doméstica. Então, em honra da minha mãe, eu falei: ‘Não, eu vou abandonar esse monólogo’ e por mais que eu esteja no domínio da técnica, eu estou narrando a morte da minha mãe, como foram os meus últimos momentos com ela. Então, é uma coisa interessante. Né? É uma coisa interessante, mas eu acho que me faz bem. Não é algo que me faz mal, acho que me alimenta, porque a minha peça é uma comédia.”
Para o ator, o palco é também o lugar onde se lapida o ofício: “Tudo para mim tá relacionado com o teatro. Tudo isso tá junto, misturado com a minha profissão. O teatro é o lugar onde você afina o seu instrumento. E já dizia o Paulo Altran, um grande ator… Ele dizia que o teatro é do ator, o cinema do diretor e a televisão é do patrocinador.
O espetáculo encerrou o festival com um relato pessoal que se transforma, no encontro com o público, em reflexão coletiva sobre memória, pertencimento, identidade e resistência cultural, tudo permeado pelo humor que marca a trajetória de Paulo Betti.



















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