• Mateus Pitela

Longa 'Vizinhos' constrange mais do que faz rir

Leandro Hassum e Maurício Manfrini tentam sustentar colagem de cenas desconexas

À parte da natureza essencialmente ridícula da condição clínica de Walter, a premissa de 'Vizinhos' oferece campo fértil para o equilíbrio entre o drama e o humor, mas a direção apressada e cartunesca de Roberto Santucci atropela respiros necessários ao filme. Foto: Divulgação


Fã de Jerry Lewis a Adam Sandler, Leandro Hassum não tem vergonha do pastelão, nem do melodrama. Em parceria de já três anos com a Netflix, o ator e humorista mergulhou com equilíbrio perfeito nessa mistura em 'Tudo Bem no Natal Que Vem' (2020), depois abraçou com mais força o ridículo no controverso 'Amor Sem Medida' (2021) e agora cai de cabeça no absurdo com 'Vizinhos'. O novo fruto do casamento entre o ator e a plataforma de streaming, entretanto, fica no meio do caminho entre se comprometer com a farsa desmiolada e apelar à narrativa de lição de moral das comédias familiares. No fim das contas, não faz bem nenhuma das coisas.


Hassum interpreta o neurótico Walter, um funcionário de uma loja de instrumentos musicais e aparelhos de som que é colocado tão à beira de um ataque de nervos que qualquer barulho excessivo pode levá-lo à morte. Junto da esposa Joana (Júlia Rabello) e da filha, Camila (Julia Foti), ele se muda para um subúrbio carioca aparentemente tranquilo, mas que se revela um risco quando os hábitos caóticos de uma família vizinha se revelam. O conflito que se segue expõe a grande ironia por trás de tudo, já que é Hassum quem mais grita e esperneia ao longo da trama.


À parte da natureza essencialmente ridícula da condição clínica de Walter, a premissa de 'Vizinhos' oferece campo fértil para o equilíbrio entre o drama e o humor, mas a direção apressada e cartunesca de Roberto Santucci ('No Gogó do Paulinho') atropela respiros que confeririam humanidade aos personagens e espaço para a elaboração cômica. A própria ironia que engole o nervoso protagonista é sufocada por conflitos genéricos que vêm e vão repentinamente, fragmentando o desenrolar da história em esquetes desconexos e, francamente, mal desenvolvidos narrativa e visualmente.


O que poderia escorar essa execução titubeante é o evidente talento de um elenco que traz ainda os frenéticos Maurício Manfrini e Marlei Cevada, veteranos de 'A Praça É Nossa', e craques em conferir profundidade às mais burlescas piadas. Manfrini, particularmente, acerta em cheio a chave do sambista Toninho — um personagem definido pela incapacidade de perceber como sua alegria se manifesta em inconveniência — mas a dinâmica de rivalidade como o vizinho barulhento de Hassum não encaixa. Quando dividem a cena, é como se ambos tentassem habitar o mesmo espaço: ou só há escada (a preparação para a piada), ou só há punchline. Como resultado, nada nunca soa completo.


Tom predominante ao longo de todo o filme, o ridículo poderia até oferecer alguma redenção, fazendo da estranheza o próprio objeto de humor de forma não distante do que fazia Andy Kaufman ou, mais atualmente, faz Eric Andre. Mas é aí que 'Vizinhos' lança mão de um melodrama tão barato quanto repentino, encerrando-se tão disfuncional e sem graça quanto a relação conflitiva que marca seus personagens. É uma pena porque, além de uma premissa rica em camadas de conflito cômico e dramático, há evidente talento no filme; um talento cujo desperdício dói ainda mais quando é ressaltado por citações gratuitas a 'Porta dos Fundos', 'Praça' e outros sucessos maiores das carreiras de suas estrelas.