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Imperiais

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Imperiais"



Reinavam paz e harmonia no Império. Ninguém precisava angariar privilégios para viver satisfeito: as energias desgastadas em folguedos noturnos, em plena liberdade, os habitantes recuperavam com a ceia farta e, durante o dia, com o descanso sob abrigos de teto baixo (refúgios altos eram desnecessários, pois nenhum intruso mal-intencionado ou invasor perigoso colocava suas vidas em risco). Namoravam graciosamente no escurinho do cinema, com bom serviço de fast food. Os infantes brincavam de esconde-esconde, entre as fileiras de grandes estruturas desgastadas pelo tempo e uso.

Mas os tempos mudam. Os subterrâneos, local da nascente do Arroio Pilão de Pedra, via de acesso secreta para as dependências do Império (um paraíso de diversões aquáticas dos imperiais), haviam sido invadidos. Aquelas criaturas descomunais de uma espécie assustadora, bem conhecida dos ancestrais, que antes pouco apareciam, iniciaram uma ocupação massiva dos subterrâneos, a princípio, sem aparente pretensão à conquista territorial, usufruindo pacificamente das ofertas generosas de alimento e lazer encontrados também ali.


Os anciãos preocupavam-se e confabulavam, mas os jovens — acostumados com os assíduos frequentadores do lugar, fornecedores de alimentos, tremendamente maiores e inofensivos —, encaravam com naturalidade os diferentes em seu meio. Viam nos filmes criaturas ainda mais assustadoras. Por que temeriam aqueles que, como seus ancestrais, vieram de outros lugares, buscando garantia de sobrevivência na fartura do Império, que os imperiais poderiam perfeitamente compartilhar, mostrando sua hospitalidade?

Num desfecho desastroso, as comilonas criaturas que se reproduziam assustadoramente, infestaram o Império, e o alimento que naturalmente abastecia as praças de alimentação passou a ficar escasso, gerando grande insatisfação naquelas criaturas desprovidas do bom senso que os imperiais herdaram dos ancestrais pré-históricos: "Na paz e na harmonia, em bons refúgios e sem luxúria, transmitiremos aos nossos descendentes o domínio do Universo". Tais gulosos tornaram-se predadores furiosos, investindo contra a pacífica comunidade que os acolheu, como em históricas invasões e conquistas territoriais. O próprio Cine Império não durou muito depois desses funestos acontecimentos. Nunca ficou provado o que o dito popular jocoso, largamente difundido entre os frequentadores humanos daquele cinema, proclamava: “Não há mais baratas no cine império; os ratos comeram todas”.


Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais

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