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Carnaval se consolida como política pública, economia e campo de pesquisa no Brasil

  • Foto do escritor: culturacaopg
    culturacaopg
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura
Foto: Filipe Araújo|MinC
Foto: Filipe Araújo|MinC

Muito além de um calendário festivo que mobiliza multidões, o Carnaval brasileiro vem sendo cada vez mais reconhecido como um território de produção de conhecimento, planejamento de políticas públicas e desenvolvimento social. Essa mudança de perspectiva nasce, sobretudo, de estudos construídos a partir da vivência direta nos territórios do samba, que reposicionam a maior manifestação cultural do país como fenômeno cultural, econômico e social de grande escala.


Para o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, o Carnaval precisa ser entendido como política contínua e estruturante. “Para cada pessoa que brilha na avenida, existem centenas de trabalhadores nos barracões e nos bastidores garantindo o sustento de suas famílias. Nossa missão é valorizar essas trajetórias, tratando o Carnaval não como um gasto sazonal, mas como um um investimento em política pública contínua de desenvolvimento e inclusão social”, afirma.


Uma das referências nesse campo é a pesquisadora e gestora pública Rafaela Bastos, atual presidente do Instituto Fundação João Goulart, da Prefeitura do Rio de Janeiro, e vice-presidente de Projetos Especiais da Estação Primeira de Mangueira. Sua trajetória conecta experiência prática no Carnaval, pesquisa acadêmica e formulação de políticas culturais. O ponto de partida de seus estudos foi a figura da mulher passista, a partir de reflexões sobre preconceitos e estereótipos que atravessaram sua própria vivência.


“Eu fui passista da Mangueira por treze anos, depois musa da comunidade por dez anos e, hoje, sou vice-presidente de Projetos Especiais da escola, vivências muito distintas daquelas que geralmente aparecem na televisão, mas que me formaram profundamente”, relata. “O samba no pé sempre esteve muito associado a estereótipos femininos. Ainda assim, essas experiências me potencializaram. São escolhas que fiz na vida, que fizeram sentido para mim e que valorizo até hoje”.


A partir dessa experiência, Rafaela ampliou sua investigação sobre os impactos desses estigmas na trajetória profissional de mulheres no Carnaval. “Quando comecei como passista, eu queria ser geógrafa e percebia que havia uma dinâmica de preconceito que poderia interromper a minha carreira ou me obrigar a escolher entre ser passista e ser profissional”, relembra.


Essas inquietações deram origem a uma pesquisa sobre a objetificação sexual da mulher passista na Marquês de Sapucaí, trabalho que recebeu, em 2017, a Medalha Rui Barbosa, uma das mais importantes honrarias culturais do país. “Ali eu entendi que, mesmo dando o melhor de mim, meus desejos profissionais poderiam não se realizar. Não por minha causa, mas por estruturas de machismo e racismo. Foi isso que me fez assumir um compromisso público com o Carnaval e com as mulheres que fazem essa festa acontecer”, afirma.


A partir de 2016, o foco dos estudos avançou para a economia do Carnaval. “Eu fui entendendo o Carnaval como um ecossistema produtivo complexo, que envolve cadeias de produção, serviços, circulação de cultura e geração de emprego e renda”, explica. “Uma escola do grupo especial vende cultura para outras escolas, para outros estados e até para outros países. Isso é economia criativa em funcionamento.”


Entre 2017 e 2021, a pesquisadora aprofundou a análise sobre financiamento cultural e tomada de decisão de investidores do setor. “Analisei quanto as escolas solicitavam, quanto era aprovado e quanto, de fato, conseguiam captar. Isso ajuda a entender gargalos, desafios e oportunidades para políticas públicas mais eficazes”, destaca. Segundo ela, o maior obstáculo ainda é o reconhecimento institucional do Carnaval como segmento econômico estruturado. “O problema é anterior à invisibilização. É a não categorização. O Carnaval ainda é precarizado e informalizado enquanto atividade econômica”, afirma. “O Carnaval existe há mais de um século, movimenta a economia criativa e a economia da cultura, mas ainda não é reconhecido como segmento econômico estruturado. Essa é a minha luta atual”, resume.


Essa leitura dialoga com a atuação recente do Ministério da Cultura, que tem tratado o Carnaval como eixo estratégico de desenvolvimento. Uma missão internacional de pesquisa sobre economia criativa e valor público percorreu Rio de Janeiro, Brasília e Salvador em cooperação com o Institute for Innovation and Public Purpose, dirigido pela economista Mariana Mazzucato. “O Carnaval mostra como cultura não é um custo, mas um investimento que amplia capacidades produtivas, fortalece o bem-estar coletivo e gera valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é muito maior do que o custo de agir”.


Para a pesquisadora, o impacto do Carnaval extrapola indicadores financeiros. Trata-se de “coesão social, do senso de identidade e patrimônio”. “O que estamos vendo aqui é que o Carnaval produz um valor maior do que aquilo que costuma aparecer nas métricas. Ele gera coesão social, habilidades, redes, conhecimento e isso é investimento de longo prazo”, avalia.


O Ministério também articula o Carnaval como espaço de conscientização social, integrando conselhos nacionais ligados aos direitos da criança, da mulher e da igualdade racial. A proposta é aproximar cultura e direitos humanos em um período de intensa ocupação dos espaços públicos.


A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Márcia Rollemberg, reforça esse entendimento. “Essa é uma das expressões mais vibrantes e transformadoras da diversidade cultural brasileira. É território de alegria, criação, encontro e afirmação de identidades, onde o povo ocupa as ruas e reafirma sua potência cultural. Justamente por essa força mobilizadora, é essencial afirmar que o Carnaval deve ser vivido com respeito, cuidado e compromisso com os direitos humanos". A dirigente conclui convocando a sociedade: “Esses valores estão no centro da política cultural que defendemos”.


Com informações: Ministério da Cultura

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