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Um cocho plebeu

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Um cocho plebeu"

Os frios de julho mais intensos, na região de Ponta Grossa, trazem-me à lembrança o cocho do galinheiro, que amanhecia com uma fina camada de gelo lacrando a superfície da água. Havia uma hierarquia entre as crianças para quebrar o gelo, e me lembro de algumas vezes em que a princesa do gelo era eu, antes de ser destronada pela criança mais nova que já estava apta a assumir o poder do riso, ante a novidade.


Nessa época eu ainda não tinha perdido também meu castelo, o que tem muito a ver com o mesmo cocho. O castelo, um abacateiro enorme, com infinitas alas (cada galhada que se estendia lateralmente com bifurcações suficientemente resistentes para sustentar o peso de uma “princesa”), era o cenário para o encantamento da infância, com minhas irmãs e vizinhas.


Eu gostava de subir até os galhos ainda tenros que empinavam para o alto, formando uma copada de coloração mais clara — a torre — de onde eu podia avistar todo o reino (os arredores de Ponta Grossa) em várias direções: as baixadas sombreadas, ainda com natureza intacta, e as colinas ainda não tomadas por habitações humanas. E sentia o vento balançar os galhos que me sustentavam, e embaraçar meus cabelos finos, que nem conheciam condicionador, naquela época. Era esperado que um desses galhos finos, algum dia, vergasse ao meu peso. Mas isso nunca aconteceu. Creio que enquanto a princesa crescia, também a torre se fortificava.


Entretanto, certo dia, despenquei direto em cima do cocho do galinheiro. Fiquei sem fala (ou seria uma parada respiratória?), que só voltou com os brados da mãe ameaçando-me com o exílio, que me destituía do título de Alteza, da coroa, da vista da torre, e da infância. O primeiro patamar da subida, um toco de galho, que já era toco de tanto perder partes de sua extremidade ressequida pelo tempo, não suportou o peso da princesa que não queria amadurecer. Nunca esperei essa traição do bom e fiel toco de galho...


Nada mais de alturas. O exílio concedido a quem perde seus direitos de infante fica no rés do chão, aonde as fantasias flutuantes e balançantes não conseguem descer, restando apenas secas passadas sobre o eito da vida real (nada a ver com realeza).


Hoje vejo o retalho de uma daquelas colinas, que se estende até o reino do fim do dia, onde o céu adormece mostrando, por uma fresta, o seu pijama de cores do ocaso, até que ela se vista com o brilho das luzes artificiais. Na fantasia ainda ardente em mim, lembram-me tochas de um exército acampado na fronteira do infinito, aguardando o toque de avançar para a conquista do derradeiro sonho.


Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi, faz parte da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes-Apla, e é correspondente da ALPAS21