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Tinha que ser mulher

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Tinha que ser mulher"




Eu passeava tranquilamente pela cidade de Castro, onde apreciava a beleza arquitetônica da Igreja Matriz, marcada por traços coloniais e imperiais, quando repentinamente ouvi o barulho estridente de buzinas seguido de freadas e de um grito: “tinha que ser mulher”.


Instantaneamente percebi a figura de uma mulher de estatura baixa, cabelo curto e não trajada com roupas tipicamente femininas. Seus braços robustos e tatuados e suas canelas grossas saíram do carro e marcharam em direção ao locutor, exclamando: “vais apanhar na frente de todo mundo para deixar de utilizar frases machistas”.


Aquele momento me levou a refletir sobre o choque cultural vivenciado na atualidade e do motivo pelo qual as mulheres foram consideradas por tanto tempo seres frágeis e inferiores.


Lembrei que eram os próprios homens que faziam questão de manter as mulheres em papeis de submissão absoluta como se fossem incapazes de prover o próprio sustento. Aliás, as gerações mais antigas se orgulhavam em dizer que as suas mulheres não precisavam trabalhar, e que o trabalho feminino advindo de senhoras casadas era considerado uma vergonha para quem lhes desposava, eis que soava como um atestado de incompetência masculina.


Ressoavam em minha cabeça as palavras de indignação de minha avó, quando minha mãe precisou praticamente suplicar ao meu pai para deixá-la exercer seu ofício como professora: “vocês estão com problemas financeiros? Seu marido não consegue sustentar a casa?”

Os anos oitenta alteraram inclusive o padrão de vestimenta feminino. Coco Chanel, por exemplo, contribuiu para masculinizar os trajes femininos: ombreiras, paletós e gravatas passaram a ser utilizados como forma de minimizar a aparência de sexo frágil.


Há aqueles que não se consideram machistas. Esses, sem dúvida, são os piores. Não nascemos machistas. Tal fenômeno cultural é construído, ainda que em menores proporções nos dias atuais.


E, diante de meus olhos, a pungência da cena: um homem arrancado de seu veículo pelos braços fortes e tatuados de uma mulher que lhe deixou massacrado, caído no asfalto. E, nas pernas curtas e peludas que se afastavam lentamente, lia-se: meu corpo, minhas regras.


Percebi, naquele momento, que a história machista brasileira jamais será a mesma: “mulher indigesta merece um tijolo na testa” (Noel Rosa) e “Amélia” (Mario Lago) se foram para sempre. Em seu lugar surgiram variadas figuras: algumas femininas, outras, nem tanto. Afinal, todos somos um pouco machistas.


Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais

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