top of page
  • Foto do escritorRedação

Redescobrindo

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Redescobrindo"



Os infortúnios da vida inauguram novas rotinas. Após um acidente automobilístico, felizmente sem culpa e sem vítimas, optamos por uma experiência inédita: viver sem automóvel próprio. De início, pensamos que a atitude não perduraria. Entretanto, já se vão quase dois meses de caminhadas das mais variadas extensões e do uso de motoristas de aplicativos, quando indispensável.


Na arte, buscamos motivação. E, notadamente na literatura, encontramos inspiração. “Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam”, afirmava Nelson Rodrigues, célebre dramaturgo e cronista. Que assim seja. E a pé, somos ainda mais lentos. Ao longo dos itinerários variados que percorremos, temos tido a oportunidade de conhecer e admirar características da nossa Princesa dos Campos antes totalmente desconhecidas ou ignoradas: detalhes da arquitetura de casarões e casebres, meandros de praças antes inexplorados, particularidades da fachada de edificações e igrejas, o semblante dos transeuntes apressados ou não. E a imaginação nos transporta a épocas não vividas, mas pelas quais guardamos prestimosa consideração.


Na impossibilidade da locomoção a pé, recorremos aos aplicativos, símbolos de uma nova era na prestação de serviços. Abrimos um parêntesis aqui para uma recordação: há alguns anos, quando dentro de um táxi, indagamos o motorista sobre o futuro dos aplicativos de transporte em nossa cidade. “Ponta Grossa não está preparada para esse tipo de modernidade”, respondeu-me. Previsão equivocada.


Malcolm Gladwell, jornalista e escritor britânico, autor de diversos best sellers, asseverava que todos temos a capacidade de tornar qualquer diálogo interessante, pois qualquer ser humano tem algo valioso a compartilhar, ansioso apenas pela oportunidade adequada e por um ouvinte atento. E é com essa postura que temos mergulhado na vida e na personalidade dos indivíduos que trabalham com o transporte de passageiros, sempre que nos é permitido. Alguns com dedicação exclusiva ao ofício, outros não. Homens e mulheres com diferentes histórias, sejam elas presentes, pretéritas ou futuras, frequentemente plenas de significados e de sentidos. Causos peculiares não faltam nessas breves mas significativas interações de benefício mútuo.


E, dessa maneira inusitada, aprofundamos um pouco mais o nosso conhecimento sobre Ponta Grossa, suas imagens e o seu povo. Uma cidade antes invisível aos olhos de um sempre apressado e solitário motorista.


Texto de autoria de Marcelo Derbli Schafranski, médico reumatologista, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais

Comments


bottom of page