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Recriando a cidade do seu jeito

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Recriando a cidade do seu jeito"



Contrariando todas as expectativas mais pessimistas ‒ sobretudo as minhas, que no campo das ideias preciso transformar fraquezas em forças para realizar até os empreendimentos mais comezinhos ‒, escrever é relativamente fácil. Sequestra-se (da vida ordinária, das Musas, do jornal, de onde se quiser ou puder) um tema, rabiscam-se umas especulações sobre ele, eliminam-se os atentados gramaticais mais flagrantes ‒ notadamente "caxorro" e "cerumano" ‒, submete-se o resultado ao comitê avaliador, que testifica nossa alfabetização a duras penas conquistada. Logo o texto sai na mídia impressa e digital, para perplexidade de amigos e parentes.


E por que haveria alguém de escrever? Porque escolheu esse dentre outros hábitos nocivos, porque as ideias inexpressadas pesam, porque o universo simbólico colhido da literatura pede vazão, porque é uma forma de arrivismo, porque o autor tem insônia ou precisa estruturar o pensamento, porque tem as estantes atulhadas de bons livros e eles reclamam más companhias. Se os motivos forem ruins, não há o que temer ‒ alguma amoralidade é desejável nessa esfera.


Para uns e outros, parece até mais fácil, eis que nessas páginas despontam velhos ponta-grossenses, bolos vulcões, recantos de papagaios e outras histórias que vencemos fluidamente, indiferentes à preguiça e ao sono.


O Município de Ponta Grossa é conhecido de todos os seus viventes ‒ com sua geografia acidentada, seus distritos longínquos, seu inverno perseverante e sua arborização episodicamente precária em contraste com a profusão de aves noturnas. A Ponta Grossa do Crônicas dos Campos Gerais é a cidade que vive e morre na carne de cada autor ‒ para MIM, é espécie de Curitiba de Dalton Trevisan sem o Vampiro; discrepante, biliosa, lugar que está e não está, simultaneamente. Eu não conhecia os Campos Gerais antes de cá morar, desde o começo da década passada. Não sei de uma Ponta Grossa bucólica, de infância, para onde retornar, mas ela existe se alguém a recriar desse modo ou para quem arquitetar outra releitura qualquer ‒ talvez emulando a São Petersburgo de Dostoiévski (embora glacial), a Santa Maria de Onetti (embora diminuta) ‒, cada cronista é o demiurgo de sua própria cidade e senhor absoluto dela, mesmo sem dever nenhuma fidelidade a ela.


Nenhuma fidelidade, e não haveria como ser diferente ‒ se assim a cidade é descrita, assim ela é; se está escrito é verdade, principalmente se não for. Em qualquer de suas possibilidades será essência de si mesma, celebremos.


Texto de autoria de Luiz Murilo Verussa Ramalho, servidor do Ministério Público Estadual, residente em Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais

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