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Os sons de minha cidade

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Hortifruti do Tozetto"

Minha terra princesina há tempos desponta progresso, inicialmente com o barulho do trotar dos cavalos dos tropeiros, depois o som advindo das linhas férreas aqui instaladas. Pensava sobre isso ao avistar o Memorial do Tropeirismo na Rua Silva Jardim. Eis aí um som que não se ouve mais. O bater dos cascos dos cavalos adormece na memória de quem um dia os ouviu, e estes, por sua vez, adormecem eternamente no berço desta terra.


Hoje ouve-se o sino da catedral, o tagarelar dos transeuntes, o barulho do trânsito e das construções. Em outros tempos, penso comigo, talvez tudo que se podia ouvir era o vento cortando as árvores, os passarinhos de variadas espécies agraciando a mata com sua cantoria, o som dos animais, a água de pequenas vertentes banhando gentilmente a terra.


“Quais foram os sons de minha cidade?” Pergunto-me, e a dúvida intriga-me muito mais do que a pergunta. Comumente em minha infância, aos fins de semana, a família se reunia e ao chegar a tarde meus tios e avós acompanhados de um violão cantarolavam alguma música tão antiga quanto posso imaginar, contando histórias de tempos que não me pertenceram, mas que muito me chamavam atenção. Então, quando se fazia noite, todos se despediam com um sorriso no rosto e recolhiam-se em suas casas, cedendo lugar aos cantores noturnos da natureza.


Em algum momento surgiram os ventos da mudança. O som dos cascos foi substituído pelo ronco dos motores, o som das violas por caixinhas de som via bluetooth, o silêncio dos campos pelo barulho das construções. Quem me dera viver em outros tempos! Lembro-me de ouvir os sons dos pássaros anunciando o dia, quando passava a noite em casa de meus avós, as árvores sacudiam as folhas, ouvia-se o cantar das cigarras, o barulho da chaleira no fogão a lenha, admirava-se as coisas naturais que compunham o dia até o anoitecer com a revoada de vagalumes e o cantar dos grilos e corujas. Por onde anda tudo isso?


Os sons da minha cidade hoje são outros, e para os que vieram antes de mim, acredito que podem trazer recordações de sons ainda mais antigos, adormecidos no tempo. Bom, mas apesar disso ninguém pode roubar os sons que ouvimos com o nosso coração e com a nossa memória. Então cada vez que passo pelo Memorial do Tropeirismo não posso deixar de “ouvir e ver” alguns tropeiros cavalgando e abrindo caminho entre as matas, com expressões sérias, outras curiosas e talvez algum deles pensasse “Este é o som do progresso!”.


Texto de autoria de Francielly da Rosa, professora da rede municipal de Ponta Grossa e estudante de Letras na UEPG, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais