• Redação

O pombo da catedral

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "O pombo da catedral"



Passava em frente à catedral, apressado, quando o vi descer, rasante, do topo da cruz, lá no alto, direto para mim. No susto, suspendi o passo, subitamente, e o encarei. Um pombo de asas brancas com manchas avermelhadas. Ele ali ficou, me olhando com seus pequeninos olhos negros, balançando a cabecinha curiosa, que parecia reconhecer em mim um amigo, até que eu me afastasse.


No final da tarde, porém, quem foi que veio do topo da cruz, novamente em voo rasante? Pois bem, o pombo. Reconheci-o de imediato, e, desta vez, com menos pressa, parei também a observá-lo. Era o final do expediente, plena hora do rush, e havia, no entorno da igreja matriz, movimento e sons quase infernais de gente e veículos.


O pombo, porém, não parecia interessado em nada à sua volta, a não ser em mim. Olhava-me diretamente nos olhos, e comecei a ficar incomodado. Atravessei a praça, aturdido, e ainda notei, ao olhar para trás, que ele de longe me seguia, alheio também aos tantos da sua espécie, habitantes em grande número do lugar.


Naquela noite, cheguei a sonhar com o pássaro, mas um sonho trágico, em que ele se jogava do alto da cruz e se espatifava no chão, ora vejam bem, um pombo suicida. E justo eu, que já tinha pensado no ato, não do alto de uma cruz, mas do alto de minha janela mesmo...


Assim, no dia seguinte, não foi sem alguma inquietação que o procurei. Era uma manhã bonita, o sol nascia e reverberava seus raios nos vitrais coloridos da catedral, criando um efeito sublime e sinestésico: eu sentia o cheiro das cores.


Foi então que observei, caído diante da entrada da igreja, o corpinho branco da ave, as asas abertas, como se ainda quisesse voar. Espatifado, como se houvesse realmente se jogado lá de cima, igualzinho ao meu sonho.


Sem reação, me deixei ficar, a velar sua existência acabada, e só deixei a praça quando ela começou a encher de gente. Saía com lágrimas nos olhos e a imaginar o meu próprio corpo caído, jogado da minha janela, espatifado e sem vida, talvez de braços abertos, como se ainda quisesse viver.


À tarde, não havia mais sinal do corpo. Teriam as formigas, já, feito seu trabalho de coveiras, ou o pombo nunca tinha existido?


Foi o que me ocorreu, ao voltar para casa. Os vitrais da catedral brilhavam, agora, noturnos, a destacar-se no entorno boêmio. Desde então, esqueci ideias suicidas, e devo isto a esse pombo ou espírito da vida, que, ao destruir-se, me salvou de minha autodestruição.


Texto de autoria de Sergio Batistel, formado em Letras Português/Espanhol pela UEPG, revisor de textos, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais