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Era uma vez em Ponta Grossa

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Era uma vez em Ponta Grossa"


Não sei há quantos anos os trilhos de trem foram retirados da região central da cidade e de alguns bairros. Sei que, há meio século, eles estavam lá em Uvaranas, no Jardim Carvalho e separando Oficinas de Olarias.


Havia duas linhas bem próximas uma da outra. A primeira utilizada por comboios de carga puxados pelas locomotivas vermelhas. Um pouco antes dela ficava uma grande área pertencente à serraria do Cunha, do Otto, que depois se tornou prefeito, eleito com onze mil votos.


Do lado direito, existia um campo de futebol sem alambrado. Ali, aos domingos, desfilavam camisas coloridas pelo campeonato das indústrias. No lado esquerdo, três ou quatro casas de funcionários, uma delas, de um tio meu que trabalhou a vida inteira na empresa e morreu ali.

A entrada ficava na outra rua pela qual se acessava um depósito de serragem e cavacos ou cepilho como chamávamos, resultado do corte e beneficiamento das tábuas. Era usado nos fogões de tijolos e até nos “econômicos”. A gás, não era muita gente que tinha naquela época.

Na segunda linha, mais para o lado de Olarias, só passavam vagonetes do pessoal de manutenção e a Maria Fumaça transportando os funcionários para o trabalho. Minha casa ficava a cinquenta metros. Da porta, eu os via chegando para o almoço pouco depois das onze e no final do dia.


Sempre admirei como conseguiam fazer aquilo. Verdade que o maquinista diminuía a velocidade, mas sem nunca parar totalmente. Eles saltavam pelas portas dos vagões em movimento e desciam correndo a Cesário Alvim em declive. Dois deles eram nossos vizinhos, um morava na esquina oposta; o outro, em frente ao nosso portão.


Quando tive algumas aulas particulares para o exame de admissão do Regente Feijó, um dia, só por espírito de aventura, peguei carona naquele do final da manhã. Com medo de ser visto pelos operários, saltei antes e me esborrachei nas pedras dos dormentes. Saiu barato: escoriações leves nos braços e pernas.


Um dia uma mulher foi morta e o corpo deixado na beira da linha, próximo da laminadora dos Wagner. Cabelo comprido, alguém descreveu. Teria sido esfaqueada pelo amante dentro do carro. Decerto casada. Talvez os dois. Quem sabe estava chantageando com uma falsa gravidez ou ele queria terminar e ela ameaçava de contar tudo para a esposa.


Eu ficava a imaginar se era jovem ou mais madura. Bonita? Loira? E pensando se alguém que andasse pela rua paralela aos trilhos numa noite de lua nova poderia dar de cara com a assombração dela. Eu é que não passaria por ali.


Texto de autoria de Wilson Czerski, militar da Aeronáutica e jornalista aposentado, residente em Curitiba, escrito no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.