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A Igreja dos ateus

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "A Igreja dos ateus"

Operários pobres e, invariavelmente, condenados à pobreza podem trabalhar na construção de bancos e prédios luxuosos, sem contradições. O que pode gerar contradição aconteceu em Palmeira, precisamente na localidade de Santa Bárbara.


O ano: 1922. Personagens: cinco italianos, os irmãos Cafiero, Eliseo e Spartacus Corsi e os irmãos Alfredo e Emílio Dusi, descendentes de italianos da experiência anarquista da Colônia Cecília, ateus por convicção. Foi o quinteto que conduziu as obras de construção da igreja da localidade, habitada por imigrantes poloneses e seus descendentes, fervorosamente católicos.


Como a velha igreja de madeira, construída 30 anos antes, já se mostrava acanhada para acomodar os fiéis ─ visto que a comunidade crescia ─, por iniciativa do padre Teodor Drapiewski 60 famílias assumiram o compromisso de colaborar na construção de uma igreja nova, maior e em alvenaria. Assim que o templo de madeira foi demolido, começou a obra da nova igreja, em março de 1922, sob a regência dos italianos ateus.


Em regime de mutirão chegavam ao local carregamentos de pedras, tijolos, areia, cal, madeira e telhas transportados em carroças e carroções. Em meio às obras, padre Teodor foi compulsoriamente transferido para Curitiba sob suspeita de mau uso dos recursos para a construção da igreja. Em substituição, chegou o padre Estanislau Cebula, que deu continuidade às obras. Mesmo inacabado, o novo templo era frequentemente utilizado para celebrações religiosas, inclusive casamentos.


A igreja foi construída seguindo o estilo arquitetônico tradicional dos templos poloneses, com uma torre frontal alta e em formato de cruz. No altar-mor, a imagem de Santa Bárbara. Acima dela, o quadro de Nossa Senhora de Czestochowa, considerada rainha e padroeira da Polônia.


Com a obra declarada concluída, um fotógrafo foi chamado para registrar o fato, imortalizando a imagem que mostra o novo templo e, à frente dele, os construtores: os Corsi e os Dusi.


Em dezembro de 1922 aconteceu a inauguração da igreja, com ato solene e presença de inúmeras pessoas, incluindo visitantes vindos de diversas comunidades da região. Os padres Teodor e Estanislau celebraram a missa. Foi um dia de festa e de comemoração para a comunidade católica de Santa Bárbara, mas os construtores do novo templo não compareceram. Certamente comungavam a alegria de beber um bom vinho, comprado com o dinheiro que ganharam honestamente construindo a igreja, dando vazão à sua alegria por mais uma obra concluída.


Texto de autoria de Rogério Geraldo Lima, empresário, redator e radialista de Palmeira, escrito no âmbito do projeto Crônica dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais.