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Toca das onças

Confira a Crônica da semana da Academia de Letras dos Campos Gerais: "Toca das onças"

O Tropeirismo foi uma das mais relevantes atividades econômicas para o desenvolvimento da região dos Campos Gerais. Gado vindo do sul era, muitas vezes, invernado em nossos pastos naturais, para depois ser vendido em Sorocaba, ou outras cidades do interior paulista.


Mas o que pouco se comenta é que esse também era um caminho de volta, aonde os tropeiros retornavam com mercadorias e dinheiro, muito dinheiro, resultado da venda dos animais. Também sabedores desse fato, salteadores rondavam o caminho, buscando oportunidades para subtrair esses recursos.


Em sua grande maioria, estas onças de prata e de ouro, dinheiro corrente na época, eram armazenados em alforjes, nas selas dos cavalos, distribuídos entre os chefes das tropas, para permitir uma parcial proteção desses valores, pois, caso um fosse atacado, os outros poderiam buscar fuga e proteção, preservando suas vidas e as onças.


Por inúmeras vezes, os capatazes desviavam um bom tanto dos caminhos tradicionais da trilha, para o leste, buscando as proteções que as rochas da Escarpa Devoniana ofereciam. Muitos buracos, fendas e pequenos córregos, que ocorrem no arenito, eram locais perfeitos para esconder seus tesouros para serem recuperados tempos depois.


Mas nem tudo é perfeito. Por ser uma região muito ampla, com sítios muito parecidos, córregos e vegetação suscetíveis às intempéries, os capatazes, não raras vezes, não conseguiam encontrar as “tocas das onças”, perdendo-se então esses tesouros. Acredita-se que, na região do rio São Jorge, até as cabeceiras do rio Tibagi, é possível encontrar as tocas das onças ainda intactas, preservadas, e com todo o conteúdo de seus tesouros.


Os tropeiros já se banhavam na Mariquinha, no Buraco do Padre, São Jorge etc., muito antes desses se tornarem os pontos turísticos tão característicos de nossa região. Porém, mais que o refresco, esses locais serviam de referências para que as tocas das onças fossem recuperadas.


Poucos conhecem essa história, pois ela é repassada de pai para filho, dentro das famílias dos tropeiros capatazes, com severas recomendações para que não se espalhe àqueles que não teriam o direito a recuperar as onças. Reza ainda a lenda que uma maldição era proferida sobre o ouro e a prata, para, caso não fosse encontrada por quem de direito, trouxesse miséria e não riqueza.


Texto de autoria de Mário Francisco Oberst Pavelec, técnico em agropecuária, residente em Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais