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Conheça a mais nova enfermeira Kaingang, formada pela UEPG

Para o indígena que ingressa no Ensino Superior, além do preconceito e esforço demandado pelo curso, outras barreiras precisam ser superadas, como a barreira linguística e a cultural

Fátima Koyo Lourenço: a mais nova enfermeira Kaingang, formada pela UEPG. Foto: Júlio César Prado


A semana de formaturas institucionais, promovida pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), retomou o formato presencial com momento de emoção entre formandos, familiares e membros da comunidade universitária. Um dos momentos marcantes foi quando a aluna indígena Kaingang, Fátima Koyo Lourenço, apresentou-se em frente à mesa de autoridades para receber o grau de bacharela em Enfermagem, usando um adorno de penas na cabeça substituído apenas pelo capelo, enquanto foi ovacionada por todos os presentes, inclusive demais formandos, que a aplaudiram de pé.


Fátima afirma que, desde o início, a trajetória da graduação foi de muito aprendizado, mas também de muito esforço. “O momento de ingressar na UEPG foi difícil, porque entre todos os inscritos do Vestibular Indígena, que sai todo ano, têm muitos concorrentes. Então foi difícil, mas sempre Deus em primeiro lugar que eu coloco e peço pra Ele que me dê sabedoria. E consegui conquistar uma vaga na UEPG e cursar Enfermagem”, conta. Além disso, Fátima relembra outras superações ao longo do curso: “Eu sempre falo que tem que ter coragem pra enfrentar tudo o que a gente passa na graduação, desde preconceito e outras coisas. Mas eu tive muita força. Teve horas em que eu pensei em desistir, mas a minha família me deu forças a continuar. Lutei de novo, pedi forças a Deus e consegui”, destaca.


Para o indígena que ingressa no Ensino Superior, além do preconceito e esforço demandado pelo curso, outras barreiras precisam ser superadas, como a barreira linguística e a cultural. “Tive contato com o homem e a mulher não indígena, assim como a linguagem. Porque eu falo Kaingang, então eu tinha que ter o domínio do português para conseguir entrar na faculdade e entrar nos estágios, o que foi uma superação pra mim”, conta Fátima, que ainda destaca todo o esforço que a fez vencer em honra ao seu povo. “Eu fico bem emocionada porque tudo o que eu fiz pra entrar nessa graduação foi pela minha comunidade indígena, pela língua Kaingang, que eles têm o domínio e não conseguem se expressar em português, então tudo foi pela minha comunidade”.


Todo esse empenho e superação foi reconhecido por quem estava presente na formatura que vibrou junto com ela. Fátima, no entanto, preferiu segurar as lágrimas, como forma de expressar sua força. “Foi bem emocionante, porque eu nunca imaginei que a plateia toda, e os formandos também, iam me aplaudir em pé. Eu só não chorei para mostrar que eu venci. Se eu chorasse eu ia passar a ideia de que eu ainda não tinha chegado lá, mas a emoção estava dentro de mim. Foi muito gratificante quando o reitor me agradeceu por ter cursado na UEPG. Foi bem emocionante ver todo mundo em pé aplaudindo”, relata a graduada. Para Fátima, sua garra e sua conquista servirão de exemplo aos demais: “Precisei de coragem pra não derramar nenhuma lágrima, porque foi uma conquista pra mim, foi uma superação, onde eu tive que estar ali pra dizer que todo indígena que entra numa Universidade Pública, se persistir e tiver confiança em si mesmo, ele chega onde ele quer chegar”.


Agora formada, Fátima pretende trabalhar como enfermeira em sua comunidade. “Se eu tiver a oportunidade de ter uma experiência fora da aldeia também, mas o foco principal é trabalhar na minha aldeia. Porque hoje em dia as nossas aldeias têm uma unidade de saúde, o UBSI, então esse é o meu foco principal. Agora, sabendo que já sou uma profissional formada, isso é muito gratificante pra mim”, afirma.


O trabalho que a enfermeira passará a desempenhar servirá muito além dos propósitos da profissão. Além de tratar da saúde das pessoas, Fátima deseja servir de modelo e de incentivo para que ainda mais indígenas ocupem os espaços das Universidades e conquistem a formação superior. “Em relação aos outros indígenas, eu sempre converso com eles para lutarem, porque sempre nós indígenas tivemos muito preconceito. Aí, sempre tem uns que querem desistir, mas sempre estou acompanhando eles, falando pra eles deixarem de lado essa discriminação e seguir em frente, porque nós estamos aqui na Universidade Pública para ter uma profissão na nossa aldeia, ser incentivo pros alunos, incentivar os pequenos que estudem, sigam a Universidade”.


21º Vestibular dos Povos Indígenas

A UEPG coordenou a 21ª edição do Vestibular dos Povos Indígenas no polo de Manoel Ribas no último domingo e segunda-feira (12 e 13). As provas foram realizadas em sete locais, divididos em seis cidades do Paraná. No total, 780 indígenas se candidataram para as provas e, desses, 130 foram destinados ao polo coordenado pela UEPG.


Fátima firmou o compromisso de estar presente nesse momento, para apoiar e servir de modelo aos futuros acadêmicos. “Eu estou lá também para incentivar que, caso eles passem, que venham estudar. Que eles vão ter dificuldades, mas que vamos lutar pra ter o melhor aqui. Para que se juntem com os outros acadêmicos para seguir em frente e superar tudo o que vier e também chegar até a formatura deles. Eu vou ser um incentivo deles e vou orientar eles nessa nova caminhada. Já tem uns aqui no terceiro ano (do Ensino Médio) que eu quero incentivar. Incentivar os indígenas a ingressar nas universidades públicas do Brasil”, enfatiza.

O Vestibular dos Povos Indígenas é realizado de forma descentralizada, com o envolvimento de todas as Universidades Estaduais do Paraná e Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nessa edição, a Universidade Estadual do Paraná (Unespar) foi a coordenadora geral do Vestibular.


Da Assessoria