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Artista de PG usa a música para mudar vidas

Circulando entre batidas e corridas, artista toca o projeto social ‘Gueto em movimento’, que distribui comida para moradores de rua

Motoboy, rapper e filantropo: artista de Ponta Grossa usa a música para mudar vidas. Foto: NCG

O rap entrou na vida do ponta-grossense Rui Adriano Leiria de Sá, mais conhecido como Polako, em 2010, quando ele passava por um período difícil da vida. “Era uma época que eu estava andando por um caminho que não era muito correto. E a minha ideia era fazer esse resgate através da música. E, graças a Deus, tem dado certo”, relembra.


Morador do bairro de Uvaranas, o rapper conta que já vivenciou muitas situações de dificuldade e preconceito. “Na quebrada, o acesso é ruim, coisas que existem no Centro não têm na quebrada. A polícia chega já dando tapa na cara. Você é tratado de forma diferente pela sua classe”, comenta.


Por tudo que vive e vê, o artista usa a música como uma forma de “politicar”. “Existe um sistema que não está dentro do sistema. A gente vê que a rua precisa da gente, pois as coisas não vão mudar se não nos mexermos. Toda mudança exige uma ação”, afirma.

Motoboy, rapper e filantropo: artista de Ponta Grossa usa a música para mudar vidas. Foto: NCG

Outra fonte de inspiração para as letras do rapper é o trabalho como motoboy, que exerce desde 2016. “Trabalhar como motoboy tem a questão de patrão e empregado. A gente depende muito dos clientes, mas nem sempre é reconhecido. Isso também é uma forma de inspiração, afinal estamos trabalhando como qualquer outra pessoa”, comenta, acrescentando que ainda pretende gravar um clipe mostrando o dia a dia da profissão.


Faz teu corre

Integrante do grupo Raciocínio Engatilhado, surgido em 2006, Polako participou da gravação de dois álbuns do grupo, Desabafo Agressivo (2011) e Reflexos Macabros (2015) – já os álbuns Dá pra Entender (2006) e Comunidade Unida ao Resgate (2008) foram lançados antes de sua entrada. Além disso, o rapper lançou três músicas solo, “Lutar pela rua”, “Olhe onde está” e “Como viver assim”. Para ele, gravar é um processo de eterno aprendizado. “Sempre tem algo novo, sempre tem alguém que vai mostrar algum hit diferente que chamará a atenção das pessoas, e precisamos nos manter atualizados, claro que sem perder o foco”, comenta.


Entre os momentos mais marcantes da carreira, o rapper destaca o dia que uma pessoa afirmou que tinha como inspiração de vida uma das músicas do grupo. “Ele falou que tinha escutado uma música nossa, chamada ‘Faz teu corre’ [ouça abaixo], e que tinha se visto nela, que parecia que havia sido feita para ele. Foi um dos melhores momentos pelo fato de ele ter entendido a mensagem que a gente estava transmitindo”, aponta.

Embora ainda não seja a sua realidade, o rapper acredita que viver de música em Ponta Grossa não é impossível, mas é difícil. “Não acho que seja impossível viver de música, mas, dentro de um sistema, às vezes a gente não tem a oportunidade de cantar em praça pública, por exemplo”, relata o artista, destacando que as plataformas digitais colaboram para a realização desse sonho. “Hoje é possível devido a essas plataformas. Tem pessoas que até tentam viver de rap nessas plataformas. Não é impossível, mas é muito difícil.”


Para mudar essa realidade, Polako defende que deveria haver mais incentivo da parte do poder público. “Deveria ter mais assistência, principalmente na parte de editais de portais de cultura, possibilitando uma participação mais ampla e trazendo novas ideias para ajudar nessa possibilidade de viver da música”, sugere.


A força do rap

Além de atuar para transformar o sistema através da música, Polako também busca mudar vidas através do projeto social ‘Gueto em movimento’, que distribui comida para moradores de rua de Ponta Grossa toda semana. O projeto surgiu depois que ele enfrentou a morte do afilhado pequeno, período em que começou a refletir sobre como poderia mudar as suas atitudes para colher bons frutos no futuro. “Queremos fazer a diferença também na ação, não só em forma de música”, observa.


Toda a arrecadação de alimentos, segundo o rapper, é realizada através de apresentações culturais. “Nós fazemos eventos e cobramos um quilo de alimento”, explica. A distribuição dos alimentos é realizada todas as quintas-feiras, às 20h, na praça do Ponto Azul, no Centro de Ponta Grossa. “Também temos outras vertentes desse projeto. Encaminhamos doações de cesta básica, arrecadamos roupas, cobertores. O nosso sonho é futuramente criar uma ONG [Organização Não Governamental]”, explica.


Polako conta que o projeto ficou popularmente conhecido como ‘A força do rap’. “O pessoal tem reconhecido que é o trabalho do hip-hop. Quando a gente chega lá, eles falam ‘olha o rap’, ‘o rap chegou’. E todos agradecem”, relata. Quem quiser ajudar pode fazer doações de alimentos no Hostel & Bar Pôr do Sol, localizado rua Rui Barbosa, 15, na região central, ou direto com Polako pelo telefone (42) 9-9989-5227.


Por NCG